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Modos Gregorianos
Artigos - Curiosidades

Muitas músicas usam elementos dos antigos modos gregorianos, para a composição de temas, para a harmonização ou para a construção de solos e improvisos. É necessário assim conhecer um pouco mais do assunto, que alimenta debates entre os músicos, e gera dúvidas de alguns alunos.

 

Primeiramente, é bom não confundir os modos gregos com os modos gregorianos, os primeiros, adotados na Grécia antiga, tinham outras características, eram descendentes e começavam em outras notas.

Muitos teóricos escreveram a respeito da confusão nas momenclaturas e as falsas denominações atribuídas a um autor anônimo que fez uma compilação no século X.

Os modos gregorianos recebem esse nome em razão do Papa Gregório I  (século VI) ter sido o organizador da antiga música litúrgica da missa latina, fundando e dirigindo a “Schola Cantorum” na qual as melodias cantadas usavam um sistema musical próprio que foi denominado posteriormente de gregoriano.

No começo do sistema eram utilizados os modos autênticos (Dórico, Frígio, Lídio e Mixolídio) e os seus respectivos plagais (começando uma quinta abaixo e recebendo o nome de "hipodórico" etc).

Por essa razão podemos encontrar livros que mencionam os modos gregorianos como litúrgicos ou eclesiásticos (outra confusão que ainda gera polêmicas).

Gioseffe Zarlino, no final da Idade Média, dá a nomenclatura dos modos do cantochão e usa as denominações confusas herdadas da Idade Média, acrescentando quatro novos modos e usando, ao acaso, outros nomes gregos disponíveis  (Jônio e o Eólio e seus plagais correspondentes).

Depois de uma série de esperiências sonoras, a música se desenvolveu para o sistema tonal e os compositores passaram a utilizar o modo maior e o modo menor.

A adoção de melodias que lembravam os modos gregorianos continuou em diversas músicas durante o desenvolvimento da música ocidental, mas podemos dizer que durante muito tempo imperou a música tonal, calcada no uso da escala maior e das escalas menores.

Entre o século XIX e XX, principalmente na Europa, compositores voltaram a utilizar o sistema modal de maneira diferente. Na época, muitos deles realizaram pesquisas musicais e “redescobriram” melodias modais na música popular de seus países. Embora seja difícil estabelecer uma correspondência direta entre períodos históricos tão distintos, entre a forma e a estrutura na qual os sons estiveram estruturados, esses compositores e os teóricos relacionaram suas descobertas com os antigos modos.

Podemos destacar entre eles Bela Bartók, Zoltán Kodály, Antonin Dvorak e no Brasil lembrar Villa-lobos, Mário de Andrade e Francisco Mignone. Nessa atmosfera de nacionalismo (descoberta da música do país) e busca de uma música nova (Debussy, Ravel, Shönberg e Stravinsky) surgem, ou melhor, renascem os modos gregorianos, empregados de outras maneiras e adquirindo novas funções.

É bom lembrar que outras “novidades” musicais se desenvolvem nesse período como o impressionismo o dodecafonismo e o começo da música para o cinema. Coincidência ou não, muitos dos grandes compositores do início do século XX, vão trabalhar como regentes, compositores e professores nos EUA; a nova música européia vai com eles e se mistura ao Jazz e ao Blues.

De certa forma também foi herdado nesse processo, a noção de que cada modo poderia expressar algum sentimento (Etos),  devemos lembrar que o início do século XX é também o palco dos primeiros trabalhos de Freud, e que a "influência" que os sons podem produzir foi importante para a consolidação do cinema como arte.

Talvez por isso possamos entender quando Miles Davis em entrevista no documentário “O definitivo Miles”, cita como “acordes impressionistas” os acordes que seu arranjador Gil Evans usou no importante disco “Kind of Blue” de Davis.

 A lista de músicas que usam de alguma maneira os modos é imensa, desde George Harrison dos Beatles (Within or Without you) à Luis Gonzaga (Baião), passando por Bill Evans (Time Remembered), John Mclaughlin (Meeting of the Spirits), Miles Davis (So What), Steve Kuhn (The Real guitarist) e John Coltrane (Impressions).  É bom lembrar novamente que muitos teóricos ainda chamam a atenção para as repetidas confusões que o assunto gera,  em muitas escolas importantes (ULM-por exemplo) os modos são estudados da forma que segue:
Formação dos Modos

Modo Jônio (semitons entre o III e IV, VII e VIII graus)

Exemplo em C (C D E F G A B C)

 

Modo Dórico (semitons entre o II e III, VI e VII graus).

Exemplo em C (C D Eb F G A Bb C)

 

Modo Frígio (semitons entre o I e II, V e VI graus).

Exemplo em C (C Db Eb F G Ab Bb C)

 

Modo Lídio (semitons entre o IV e V, VII e VIII graus)

Exemplo em C (C D E F# G A B C)

 

Modo Mixolídio (semitons entre o III e IV, VI e VII graus).

Exemplo em C (C D E F G A Bb C)

 

Modo Eólio (semitons entre o II e III, V e VI graus).

Exemplo em C (C D Eb F G Ab Bb C)

 

Modo Lócrio (semitons entre o I e II, IV e V graus ).

Exemplo em C (C Db Eb F Gb Ab Bb C) - Apesar de ser usado, o modo Lócrio é outra criação teórica que gera conflito entre  os teóricos

 

Observação: outra confusão que devemos evitar é a de relacionar os modos diretamente com as escalas maiores, um Dórico NÃO é uma escala maior começando com a segunda nota, as notas são as mesmas, porém a idéia é diferente.

No sistema tonal o centro é o primeiro grau da tonalidade (tônica), podemos estar no segundo grau, mas o fluxo melódico e harmônico se encerra na tônica; já no sistema modal, a nota principal é a primeira do modo que recebe o nome de “finalis”.

O assunto não se esgota aqui, devemos estudar os modos no instrumento, mas devemos principalmente reconhecê-los auditivamente. Os modos podem ser alterados originando novas possibilidades sonoras. Por enquanto é bom entender um pouco da história deles e saber que esse assunto, que muitas vezes parece tão moderno, já pertence à música há muito tempo.  

Marco Prado

www.marcoprado.com